A vida é uma cereja. A morte um caroço. O amor uma cerejeira.

4 de abril de 2006

Signo chinês: Búfalo

Descobri algo sobre a minha personalidade.

Deus estava na sua oficina, naquela época ainda não tinha a fábrica.
Era dia de fazer animais e chegou a altura dos búfalos, que iria colocar naquelas pastagens sem fim nas pradarias da América do Norte.
No final do dia sobrou-lhe um pouco de barro. Não dava para mais um búfalo; como no dia seguinte seria dia de fazer pessoas, decidiu, e muito bem, não atirar fora aquele pedacito de barro. Há que poupar! E fez-me a mim. Com infinita paciência, lá me foi moldando. Não o fez mal. Pelo menos nunca me queixei. Com um metro e meio de altura e como tinha só olhos escuros ali à mão, decidiu que não podia ser sueca, ficaria bem como portuguesa. Com a mistura de raças que há pelo cantinho à beira mar plantado, nem se notava. Como acabou o barro tive de ser menina. Não havia material para mais “material”.
Quanto ao recheio, e como ainda estava a pensar no trabalho que tinha executado durante o dia com os búfalos, e já se estava a fazer tarde, não foi de modas. Deu-me a fortaleza, tenacidade e calma conforme a ocasião impõe.
Boa mãe para as crias.
Integra, de confiança e verdadeira para os seus amigos e família.
Com a dose de inteligência e memória que, segundo os estudos estes animais possuem.
Coragem e determinação para resolver os problemas.
Reservada, pensativa e sensível: Entro em êxtase quando vejo a força da natureza sintetizada numa pequena flor que desabrocha.
Arrepia-me um nascer ou um por do sol. Também gosto de uma forte chuvada, ou de um vendaval assustador.
Tive uma infância feliz a todos os níveis. Acho que foi o verdadeiro alicerce para aguentar os empurrões e os apertos que mais tarde tive de aguentar.
Tenho muitas saudades do meu pai, dos meus avós e padrinhos, pessoas que povoaram a minha infância e já partiram. Sei que as horas deles não duraram ao compasso da minha vontade, mas, aprendi na cama de um hospital que do nada, ás vezes surgem forças que nos fazem continuar. Por isso, e por vezes também tenho saudades dos meus irmãos, mãe, marido ou filhos. Saudades porque as vidas passam em paralelo e deveriam ter mais pontos de encontro do que efectivamente têm.
A vida por vezes foi passando, com aquele vagar desesperante, outras com a rapidez de um avião supersónico. Tenho muitas histórias, bonitas e feias para contar, se o computador não me pregar partidas, um dia destes vou começar a escrever um livro.
Acho que muitas das coisas que ficam dentro de nós nos são transmitidas pela família, outras pela capacidade que temos de absorver a vida e outras ainda pela leitura e conhecimento. Também há a parte genética. A essa não lhe podemos fugir. Mas a vida ás vezes é madrasta e nós, sem nos apercebermos transformamos os nossos sentimentos puros em raiva de primeira qualidade. Aí entra a preparação que criámos para, na maior parte das vezes contornarmos os acontecimentos.
Nasci com a música dentro de mim. É a seiva da minha vida, a razão dos meus contrastes. Tenho a minha própria orquestra interior sempre a tocar e por vezes extravasa em jeito de assobio. Noto o assombro na cara das pessoas que, em situações insólitas, me ouvem assobiar.
Talvez por isso também sei, quando na orquestra da vida as pessoas andam desafinadas...
Voltando ao búfalo que há em mim, já agora gostaria de morrer como ele. Com a mesma dignidade. Ficar para trás, não aborrecer ninguém. Deitar-me vagarosamente debaixo de uma acácia florida e por ali ficar inspirando o seu forte aroma. Por este simpático animal, que me coube em sorte, aqui estou no trilho que me coube percorrer.
Já agora, quando chegar ao fim, ponham o Mozart a tocar, pois iam dar-me uma grande alegria.