A vida é uma cereja. A morte um caroço. O amor uma cerejeira.

1 de janeiro de 2009

Para 2009

Aprecio, como muitos de vós, o conforto das rotinas do dia-a-dia – a segurança do familiar, a tranquilidade da repetição. Aprecio-as como qualquer um mas entendo que podemos gastar algum do nosso tempo para nos sentarmos e conversarmos um pouco.
Já todos percebemos que há aqueles a quem nada agrada que conversemos e, tão pouco, que pensemos. E porque não lhes agrada? Porque as palavras nunca perdem o seu significado, o seu poder. As palavras oferecem os meios para comunicar e, para aqueles que ouvem, o enunciado da verdade. E a verdade é que algo de terrivelmente errado se passa com este país, não acham? Injustiça, desigualdade, intolerância e, até, princípios de opressão. E num país onde as pessoas deviam exercer o seu direito, o seu dever de opinar livremente, hoje temos auto-censura, apatia e meios pouco dignos de nos manter quietos e calados. Sem fazer ondas. Submissos. E como é que tudo isto aconteceu? Quem tem a culpa? É um facto que há uns mais responsáveis do que outros mas também, verdade se diga, se é culpados que procuramos basta-nos que nos olhemos no espelho.
Eu sei porque somos assim. Sei porque nos acomodamos e tememos. É compreensível, não é? Trabalho, despesas, contas, meios de comunicação que nos estupidificam. Há uma miríade de razões que conspiram para que a nossa razão seja corrompida e o nosso senso comum toldado.
O medo, e o comodismo venceram-nos. A ilusão da posse também. Lutamos para ter e não para ser. Lutamos para ultrapassar os outros (e às vezes usamos truques menos dignos) e não para nos ultrapassarmos a nós mesmos. A nossa vida faz-se de conquistas imberbes e não de lutas gloriosas quando devia ser exactamente ao contrário.
É preciso abrir os olhos, gritar aos ouvidos, espetar as palavras e os pensamentos nas consciências das pessoas. É preciso relembrar ao povo deste país aquilo que ele parece ter esquecido. Temos de recordar que a delicadeza, a educação, a justiça, a honestidade e a liberdade são mais do que palavras, são perspectivas, são posturas, são atitudes.
Portanto, se acham que tudo isto é um discurso inócuo, se acham que tudo está bem como está, sugiro-vos que esqueçam o que leram aqui. Por outro lado, se concordam, se sentem incómodo, inconformismo, necessidade de mudar, então peço-vos que façam do ano de 2009 um ano de mudança. Peço-vos que não esperem pela onda para navegar. Criem a vossa própria onda. Despertem e despertem-se, incomodem e incomodem-se. Abdiquem do acessório e lutem pelo essencial. Lutem mesmo. Lutemos. Acreditem porque na crença está a motivação e acreditem porque é verdade.
Vamos trilhar um novo caminho, assumir uma nova postura.
Está na hora de sair para a rua. Está na hora de escrever. Está na hora de agir. Está na hora de desobedecer aos privilegiados, aos poderosos, aos dominantes.
As pessoas não devem temer as ideias. Não devem ter medo de ousar, de pensar, de exigir, de agir. Aqueles que não querem ousadia, consciência, exigência e acção é que devem temer.